Este blog é uma ferramenta usada para troca de informações e materiais para o desenvolvimento da disciplina "Ética e Justiça" do Curso de Bacharelado em Ciências e Humanidades - BC&H da UFABC, sob a responsabilidade do Prof. Dr. Flamarion Caldeira Ramos.
Uma coisa não ficou muito clara para mim: para os filósofos utilitaristas e para Kant, ser ético refere-se a cada ação tomada ou seria o mesmo que para Aristóteles, que para ser considerado ético e virtuoso, é necessário ver toda a experiência de vida para poder dizer? Nesse sentido, ser ético refere-se a ações isoladas ou toda a experiência de vida? É possível ser ético até certo ponto da vida e depois passar a ser "anti-ético"? E do contrário, é possível não ser ético até certo ponto, e depois reconhecer a necessidade da ética?
Aliás, qual seria o melhor termo/expressão para se referir a uma pessoa que age de forma que não segue a ética: não-ético ou anti-ético?
Olá Ariel, boa noite. Kant e os utilitaristas preferem falar do critério das ações e menos do caráter das pessoas. Por isso, se fala sobre o neo-aristotelismo como uma "ética das virtudes". Os modernos preferem falar em ações e menos em "virtudes". Embora os modernos também falem em virtudes (Kant dedicou uma parte de sua "Metafísica dos Costumes" à teoria da virtude), eles preferem estabelecer um critério racional para avaliar ações e deixam em segundo plano a questão sobre o caráter das pessoas. Sobre a questão linguística que você coloca, cada filosofia adota uma certa terminologia, mas é possível dizer, em linhas gerais, que quem age contrariamente à ética é "anti-ético" ou imoral e quem age de modo indiferente é a-ético ou amoral. Parece haver um certo consenso de que ser ou fazer aquilo que todos consideram reprovável é ser anti-ético ou imoral, e ser ou agir de modo a desconsiderar certos padrões de ética ou moralidade (embora não todo padrão) é ser amoral (a expressão "não-ético" é menos comum). Mas isso é passível de muita discussão.
Estou com dúvida em relação às análises da razão durante a Idade Moderna (análises: Empirista, Racionalista e principalmente Kantiana). Por isso, vou utilizar as anotações que eu fiz assistindo suas aulas, para comprovar a minha 'tese' rs:
Em resumo: A razão empirista valida-se através das experiências sensíveis. A razão racionalista valida-se na dúvida das próprias experiências, ou seja, valida-se somente no próprio questionamento racional das coisas (cogito, ergo sum). A razão kantiana valida-se 'somente' na busca pela racionalidade prática purificada que, de certa forma, depende da separação e refutação da racionalidade teórica como única e exclusiva fonte de razão pura.
Seria isso mesmo, ou estou equivocada em algum ponto?
São questões bem interessantes e complexas que você coloca. Vou dividi-las em 2 partes: uma sobre o conceito de razão no empirismo e no racionalismo e outra sobre a concepção kantiana de razão. A concepção empirista concebe a razão como subordinada às experiências sensíveis, como você bem colocou. Ocorre, porém, que não podemos desconsiderar que há bastante divergência entre os filósofos empiristas tanto na maneira como cada um entende em particular a experiência sensível e também a racionalidade. Embora se possa dizer que Locke, Berkeley, Hobbes e Hume sejam empiristas, cada um entende a relação entre razão e sensibilidade de uma maneira (que não caberá aqui detalhar). Em geral, os racionalistas acreditam que a razão possui certas "idéias inatas" ou uma estrutura que funciona independente da experiência sensível e é dessa capacidade da razão que deriva o elemento irrefutável das ciências. Kant tenta conciliar o empirismo e o racionalismo, mostrando que no âmbito das ciências naturais, embora o elemento "a priori" da razão (no caso, o entendimento) dê forma à experiência, um conhecimento que não se remeta à experiência não tem conteúdo, por isso a metafísica não é possível como ciência. É nesse sentido que ele afirmará a incapacidade da razão teórica de conhecer para além da experiência. Mas para Kant, a razão prática, ao contrário, precisa ser pensada fora da experiência para que ela possa, por si mesma, criar sua própria lei (para além das leis naturais) e com isso, possibilitar uma ética universal e necessária. Como, para ele, o interesse prático da razão é mais importante que o interesse teórico, ele afirma a primazia da razão prática sobre a teórica. Espero que esses elementos possam ajudar a esclarecer o tema, bastante espinhoso, que você abordou.
Essa me surgiu com relação a diferenciação entre as razões teóricas e práticas, apresentadas por Kant. Pelo o que compreendi dos vídeos e dos slides:
A razão teórica provém de uma natureza exterior à dos homens, e ela por si só, não consegue garantir a razão pura, porque costuma extrapolar seus limites quando se julga capaz de construir por si mesma o conhecimento. Por isso, ela precisa das experiências sensíveis para gerar um conhecimento racional plausível. Já a razão prática possui como objeto de estudo a liberdade humana que leva à autonomia racional. Porém, ela costuma ser contaminada pela razão empírica (que é a razão teórica). Por conta disso, a primeira precisa ser dissociada dessa segunda (purificada) para chegar à razão pura.
Ou seja, como o senhor disse, a razão prática PRECEDE à teórica.
A minha dúvida é: existe uma ordem específica entre essas razões (por exemplo: primeiro, "acontece" à razão teórica e só depois a prática) ou esse "preceder" de uma razão à outra foi determinado somente pelo grau de importância para Kant (a razão prática é mais importante que a teórica, porque somente a primeira - na forma purificada - consegue levar ao conhecimento racional puro)??
Olá Júlia, parte da sua dúvida foi abordada na resposta acima. A razão teórica e a razão prática têm objetos distintos de aplicação: a razão teórica diz respeito ao conhecimento dos objetos exteriores (como a natureza e os objetos metafísicos como Deus, a alma, etc) e a razão prática cria seus próprios objetos (a liberdade, a lei moral). Não há uma ordem de precedência (cronológica) entre as duas, mas uma hierarquia de importância. A razão prática tem prioridade porque ela diz respeito a algo que tem um interesse mais amplo (a moralidade) que a razão teórica (o conhecimento). Para Kant, a razão teórica não funciona sem a experiência sensível (empiria); a razão prática só tem autonomia se ela é purificada da experiência sensível. A razão teórica precisa da experiência; a razão prática precisa ir além da experiência, ou permanecer pura diante dela, pois só assim, a ética poderia ser universal e incondicional.
Boa noite!
ResponderExcluirProfessor,
Uma coisa não ficou muito clara para mim: para os filósofos utilitaristas e para Kant, ser ético refere-se a cada ação tomada ou seria o mesmo que para Aristóteles, que para ser considerado ético e virtuoso, é necessário ver toda a experiência de vida para poder dizer?
Nesse sentido, ser ético refere-se a ações isoladas ou toda a experiência de vida? É possível ser ético até certo ponto da vida e depois passar a ser "anti-ético"? E do contrário, é possível não ser ético até certo ponto, e depois reconhecer a necessidade da ética?
Aliás, qual seria o melhor termo/expressão para se referir a uma pessoa que age de forma que não segue a ética: não-ético ou anti-ético?
Agradeço desde já.
Ariel Elliot
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirOlá Ariel, boa noite.
ResponderExcluirKant e os utilitaristas preferem falar do critério das ações e menos do caráter das pessoas. Por isso, se fala sobre o neo-aristotelismo como uma "ética das virtudes". Os modernos preferem falar em ações e menos em "virtudes". Embora os modernos também falem em virtudes (Kant dedicou uma parte de sua "Metafísica dos Costumes" à teoria da virtude), eles preferem estabelecer um critério racional para avaliar ações e deixam em segundo plano a questão sobre o caráter das pessoas.
Sobre a questão linguística que você coloca, cada filosofia adota uma certa terminologia, mas é possível dizer, em linhas gerais, que quem age contrariamente à ética é "anti-ético" ou imoral e quem age de modo indiferente é a-ético ou amoral. Parece haver um certo consenso de que ser ou fazer aquilo que todos consideram reprovável é ser anti-ético ou imoral, e ser ou agir de modo a desconsiderar certos padrões de ética ou moralidade (embora não todo padrão) é ser amoral (a expressão "não-ético" é menos comum). Mas isso é passível de muita discussão.
Oi professor, boa noite!
ResponderExcluirEstou com dúvida em relação às análises da razão durante a Idade Moderna (análises: Empirista, Racionalista e principalmente Kantiana). Por isso, vou utilizar as anotações que eu fiz assistindo suas aulas, para comprovar a minha 'tese' rs:
Em resumo:
A razão empirista valida-se através das experiências sensíveis.
A razão racionalista valida-se na dúvida das próprias experiências, ou seja, valida-se somente no próprio questionamento racional das coisas (cogito, ergo sum).
A razão kantiana valida-se 'somente' na busca pela racionalidade prática purificada que, de certa forma, depende da separação e refutação da racionalidade teórica como única e exclusiva fonte de razão pura.
Seria isso mesmo, ou estou equivocada em algum ponto?
Obrigada!
Júlia Raymundo
Olá Júlia, boa noite!
ExcluirSão questões bem interessantes e complexas que você coloca. Vou dividi-las em 2 partes: uma sobre o conceito de razão no empirismo e no racionalismo e outra sobre a concepção kantiana de razão.
A concepção empirista concebe a razão como subordinada às experiências sensíveis, como você bem colocou. Ocorre, porém, que não podemos desconsiderar que há bastante divergência entre os filósofos empiristas tanto na maneira como cada um entende em particular a experiência sensível e também a racionalidade. Embora se possa dizer que Locke, Berkeley, Hobbes e Hume sejam empiristas, cada um entende a relação entre razão e sensibilidade de uma maneira (que não caberá aqui detalhar).
Em geral, os racionalistas acreditam que a razão possui certas "idéias inatas" ou uma estrutura que funciona independente da experiência sensível e é dessa capacidade da razão que deriva o elemento irrefutável das ciências.
Kant tenta conciliar o empirismo e o racionalismo, mostrando que no âmbito das ciências naturais, embora o elemento "a priori" da razão (no caso, o entendimento) dê forma à experiência, um conhecimento que não se remeta à experiência não tem conteúdo, por isso a metafísica não é possível como ciência. É nesse sentido que ele afirmará a incapacidade da razão teórica de conhecer para além da experiência. Mas para Kant, a razão prática, ao contrário, precisa ser pensada fora da experiência para que ela possa, por si mesma, criar sua própria lei (para além das leis naturais) e com isso, possibilitar uma ética universal e necessária. Como, para ele, o interesse prático da razão é mais importante que o interesse teórico, ele afirma a primazia da razão prática sobre a teórica.
Espero que esses elementos possam ajudar a esclarecer o tema, bastante espinhoso, que você abordou.
Atenciosamente,
Prof. Flamarion
E uma outra dúvida, professor...
ResponderExcluirEssa me surgiu com relação a diferenciação entre as razões teóricas e práticas, apresentadas por Kant.
Pelo o que compreendi dos vídeos e dos slides:
A razão teórica provém de uma natureza exterior à dos homens, e ela por si só, não consegue garantir a razão pura, porque costuma extrapolar seus limites quando se julga capaz de construir por si mesma o conhecimento. Por isso, ela precisa das experiências sensíveis para gerar um conhecimento racional plausível.
Já a razão prática possui como objeto de estudo a liberdade humana que leva à autonomia racional. Porém, ela costuma ser contaminada pela razão empírica (que é a razão teórica). Por conta disso, a primeira precisa ser dissociada dessa segunda (purificada) para chegar à razão pura.
Ou seja, como o senhor disse, a razão prática PRECEDE à teórica.
A minha dúvida é: existe uma ordem específica entre essas razões (por exemplo: primeiro, "acontece" à razão teórica e só depois a prática) ou esse "preceder" de uma razão à outra foi determinado somente pelo grau de importância para Kant (a razão prática é mais importante que a teórica, porque somente a primeira - na forma purificada - consegue levar ao conhecimento racional puro)??
Obrigada!
Júlia Raymundo
Olá Júlia, parte da sua dúvida foi abordada na resposta acima. A razão teórica e a razão prática têm objetos distintos de aplicação: a razão teórica diz respeito ao conhecimento dos objetos exteriores (como a natureza e os objetos metafísicos como Deus, a alma, etc) e a razão prática cria seus próprios objetos (a liberdade, a lei moral). Não há uma ordem de precedência (cronológica) entre as duas, mas uma hierarquia de importância. A razão prática tem prioridade porque ela diz respeito a algo que tem um interesse mais amplo (a moralidade) que a razão teórica (o conhecimento).
ExcluirPara Kant, a razão teórica não funciona sem a experiência sensível (empiria); a razão prática só tem autonomia se ela é purificada da experiência sensível. A razão teórica precisa da experiência; a razão prática precisa ir além da experiência, ou permanecer pura diante dela, pois só assim, a ética poderia ser universal e incondicional.
Obrigado pelas questões!
Prof. Flamarion